A identidade da Gândara tem marcas de história antiga na sua composição, sendo a fixação da população um fator relevante para o crescimento deste território. É evidente a recente ocupação do território gandarês. A fixação do povo gandarês no território teve influências vindas de outros povos, moldando o comportamento e modus vivendi de quem lá vivia (Reigota, 2000; Santiago, 2007).
Foram vários os desafios que este povo enfrentou por ali querer ficar tendo de se adaptar e moldar às suas difíceis características - deixando assim por várias gerações - memórias de uma história e identidade cultural que ainda hoje prevalecem. A identidade gandaresa está efetivamente ancorada no modus vivendi.
Assim, as comunidades que há vários séculos se estabeleceram neste território, trabalharam o solo e tiraram partido dos seus recursos endógenos, tendo em consideração as suas características geomorfológicas e os métodos e técnicas adotados para o concretizar (sofreram muitas influências da ocupação de outros povos e culturas). Existiu influência de outros povos, com culturas e realidades distintas, que tiveram a necessidade de se adaptar e que foram dando origem à cultura gandaresa. Esta ocupação, foi morosa e houve a necessidade de adaptação às vastas dificuldades que foram impostas por este território com solos áridos (Tomé, 2015).
A necessidade de utilização dos recursos endógenos em território gandarês, foi importante para a sobrevivência dos povos que se começaram a fixar nestes locais. Os traços culturais que eram comuns a povos que estiveram em Portugal, nomeadamente romana, visigótica e árabe (Cupido, 2006), tiveram influência na criação da identidade regional gandaresa, tal como a conhecemos hoje. Carlos (2015) destaca a plantação da mata e pinhal como um dos fatores de fixação da população. Com o posterior aparecimento do pinheiral, esta nova reflorestação permitiu a criação de uma barreira de proteção que impedia o avanço das areias na Gândara (Cação, 2006). O Homem gandarês moldou o território, no entanto, o território também influenciou o modo de viver do povo gandarês. O habitante da Gândara, era conhecido como o “gandarês”, oriundo destas terras. As dificuldades que este povo foi ultrapassando, resultaram num sentido de muito comunitarismo e ajuda ao próximo, transmitindo um sentimento de pertença, que estava enraizado em cada gandarês.
Assim, existiam muitas marcas de comunitarismo e entreajuda na região gandaresa. Há vários elementos que explicam essa necessidade de “ajudar” (Frada, 1999): os trabalhos coletivos gratuitos ou por troca; as companhas dos pescadores; os pagamentos em género; hábitos e costumes gastronómicos que fomentavam o relacionamento social; as ofertas de comida a visitas e as ‘trocas de broa’; os “sistemas de proteção comunitária”; os mecanismos de exclusão e aproximação.
Assim, o território gandarês “[…] albergava uma comunidade sui generis com usos e costumes muito próprios que constituem um património ímpar a cuja preservação se têm dedicado algumas associações locais, na tentativa de garantir a sua continuidade” (Góis, 2007, p. 9).
Conhecida como “Mulher Gandaresa” a figura feminina da Gândara, era assim chamada pelo papel relevante que teve na preservação dos hábitos e costumes gandareses, e residia no território que englobava a Gândara. Este território, de acordo com Reigota (2000) tornou-se num ‘bom refúgio’ para a população gandaresa que enfrentou muitas adversidades para sobreviver. A mulher gandaresa foi, e é um símbolo da identidade e modus vivendi muito importante para o território. De acordo com a revisão da literatura, num plano mais alargado, em termos populacionais, só a partir dos séculos XVI e XVII há o ‘aparecimento’ do território gandarês (Cação, 2006; Cravidão, 1992; Reigota, 2000).
Após a sua consolidação, ficou muito evidente que os pilares da comunidade estavam assentes em entreajuda e comunitarismo (Cupido, 2006), e a ‘Mulher Gandaresa’ era uma parte muito importante nesse pilar, e na criação da identidade regional. Para Cação (2006), o território gandarês, como o conhecemos atualmente, deve-se em grande parte à mulher gandaresa. Assim, conseguiu-se destacar das demais pelo seu vestuário tendo um papel fundamental na preservação do património imaterial gandarês, que era passado de geração em geração (Ramos & Costa, 2015).
Assim, parte desta identidade regional, passava por atividades do quotidiano, como a “governação da casa”; trabalho na agricultura, criação de gado, tradições, educação da família, etc. Como se estava num território que tinha poucas oportunidades de trabalho e de subsistência, os homens gandareses migravam (de dezembro até ao verão), e era então a figura matriarcal da família que estando presente, tomava o controlo de todas as atividades que estavam adjacentes à “Casa Gandaresa” (Cação, 2006), migrando sazonalmente para o Alentejo e Ribatejo (Cação, 2006; Frada, 1992; Neto, 2013). A sociedade rural desta época, “[…] baseava-se numa partilha de responsabilidades e na complementaridade de funções entre homens e mulheres, sobretudo no seio do agregado familiar” (Vaquinhas, 2001, p. 11).
Para mais informações consultar:
Referências Bibliográficas (APA):
Cação, I. (2006). Crónicas Gandaresas. Associação de Moradores da Praia da Tocha.
Carlos, E. M. (2015). Terras da Gândara - O quotidiano das gentes e a Cozinha Gandaresa . As memórias dos Saberes e dos Sabores [Faculdade de Letras da Universidade de Coimbra]. https://estudogeral.sib.uc.pt/handle/10316/29661?mode=full
Cravidão, F. (1992). A população e o povoamento da Gândara (Génese e Evolução). Comissão de Coordenação da Região Centro.
Cupido, M. (2006). Em Busca de Identidades: Aspetos Etnográfico-Históricos de Mira (CEMAR (ed.)). CEMAR.
Frada, G. (1992). Namoro à Moda Antiga. Edições Colibri, Voz de Mira.
Frada, G. (1999). “Marcas” do comunitarismo na região da Gândara. Gandarena. Revista Cultural de Mira e Da Gândara, 2, 22–34.
Góis, I. (2007). O museu para o ourives ambulante. Considerações acerca de uma programação museológica [Universidade Lusófona de Humanidades e Tecnologias]. http://www.museologia-portugal.net/files/upload/mestrados/ines_gois.pdf
Neto, M. S. (2013). Tocha : uma História com Futuro. Palimage. https://estudogeral.sib.uc.pt/handle/10316/84999
Ramos, D., & Costa, C. (2015). Historical evolution of the coastal rural “Gandaresa” house and the role of women. International Forum GENTOUR 2015, Universidade de Aveiro, 1-2 July 2015, 16.
Reigota, J. (2000). A Gândara Antiga. Concelhos de Cantanhede, Mira e Vagos (CEMAR, Ed.). CEMAR.
Santiago, L. F. (2007). A casa Gandaresa do distrito de Aveiro : contributo para a sua reabilitação como património cultural. [Universidade de Évora]. https://dspace.uevora.pt/rdpc/handle/10174/18276
Tomé, J. (2015). Gândara - Determinantes naturais e ocupação de um território [Faculdade de Letras da Universidade de Coimbra]. https://estudogeral.uc.pt/handle/10316/29853
Vaquinhas, I. (2001). Mulheres de Montemor-o-Velho. Entre a passividade e a resistência. Breve relance histórico (Câmara Municipal de Montemor-o-Velho (ed.)). Gutenberg - Artes Gráficas, Lda. https://estudogeral.uc.pt/handle/10316/35216